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sábado, 16 de abril de 2011

Por Olavo de Carvalho

Como tornar-se um gostosão intelectual
O grande benefício social das filosofias prontas é que basta aderir a uma delas da boca para fora, sem mesmo precisar conhecê-la, e instantaneamente o cidadão se eleva ao estatuto de fiscal das filosofias alheias, com direito a julgá-las ex cathedra e então sentir-se lindo, maravilhoso, um perfeito gostosão intelectual.

Três correntes de pensamento, por serem as mais citadas na mídia -- com a admirável brevidade dos escritos jornalísticos --, e também porque a classe dos professores universitários não as ignora de todo, têm sido no Brasil as mais freqüentadas por aquelas criaturas, que aí encontram o reconforto de uma prótese cultural capaz de dar, a baixo preço, uma aparência de solidez às suas vacilantes identidades pessoais, roídas na base por um pai relapso e uma mãe opressora (ou vice-versa).

São essas correntes:

(a) O marxismo, compreendido no seu sentido mais elástico, que não implica nenhum contato nem mesmo manual com as obras de Karl Marx, dando-se por satisfeito, no mais das vezes, com o vago e delicioso sentimento de pertinência à parte mais progressista e iluminada da espécie humana, adquirido na prática assídua de greves estudantis e na freqüentação diuturna de rodinhas de violão.

(b) O aristotélico-tomismo sem Aristóteles nem Tomás, que ninguém é de ferro. Para tornar-se autoridade na matéria, vá até à paróquia mais próxima, confesse uns pecados quaisquer (não os piores, é claro) e saia falando mal dos protestantes, dos judeus e dos esquisitões como eu. Isso vale por um Ph. D. em filosofia escolástica pela Universidade de Navarra.

(c) O liberalismo iluminista-materialista-cientificista, no qual se pode adquirir uma formação completa mediante o Dicionário Filosófico de Voltaire, mais alguns capítulos seletos de A Sociedade Aberta e Seus Inimigos de Sir Karl Popper e uma ou duas entrevistas do Dr. Richard Dawkins no youtube.

Uma quarta corrente de idéias é a dos tradicionalistas guénonianos, evolianos e duguinianos. Mas ela é bem menos popular que as outras três, porque seus membros praticam o segredo iniciático, que consiste em esconder-se debaixo da cama com medo do Kali-Yuga e jamais ser vistos em parte alguma, nisto consistindo, precisamente, o ritual de ingresso nessa comunidade de elite.

Qualquer pessoa de inteligência mediana, inferior ou nula pode se inscrever nos quadros de uma dessas quatro militâncias mediante simples declaração escrita, oral ou mental e transfigurar-se imediatamente em seu porta-voz autorizadíssimo, passando a verberar os adversários reais ou irreais das ditas cujas com palavras de fogo desferidas, quais mortíferos petardos celestes, desde os cimos imortais do Orkut ou do Facebook.

O imprudente que não tenha tido a oportunidade ou desejo de dissolver sua individualidade pensante num desses grupos de referência, ou que sinta a natural dificuldade humana de reduzir sua experiência do mundo às fórmulas mais simplórias e autoprobantes que neles se cultivam sob o nome de “filosofia”, de “teologia”, de “ciência” ou de “sabedoria esotérica”, será inelutavelmente chamado de “fascista” pelo primeiro, de “herético” pelo segundo, de “fanático religioso” pelo terceiro e de “profano” pelo quarto.

Feito isso, os membros de cada uma das agremiações se cumprimentarão efusivamente, celebrando a vitória da solidariedade comunitária sobre a intolerável pretensão individual de investigar a verdade da situação concreta.

Diário do Comércio , 24 de março de 2011

terça-feira, 12 de abril de 2011

Um filme que celebra os pequenos eventos da vida


“O fabuloso destino de Amélie Poulain”, Jean-Pierre Jeunet (produzido por Claudie Ossard, 2001)

Adoro análises cinematográficas, ainda mais de uma obra-prima como essa...

"Amélie Poulain é uma criança privada do convívio com outras crianças. A evidente
dificuldade de relacionamento social dos pais é transferida para a menina. Esta em seu isolamento,
inventa um mundo para si. Sua mãe, uma ex-diretora escolar com eminentes crises nervosas,
falece tragicamente quando Amélie ainda era criança. Seu pai, um médico militar, distante afetivo,
torna-se melancólico e fechado em si após a perda da esposa. Já adulta, a personagem principal
do filme, reside em Paris em seu “mundo particular”. Trabalha como garçonete em um pequeno
café e mora em um apartamento alugado onde vive suas fantasias. Mantém-se isolada da conexão
com os outros, ocupa seu tempo imaginando a vida, forjando ludicamente suas experiências, ao
mesmo tempo, em que foge da possibilidade de concretizá-las. Porém, sua vida sofre uma
transformação radical no dia em que descobre em seu apartamento, uma antiga caixa cheia de
objetos infantis. Empolgada, assume a missão de encontrar seu dono. Nessa jornada é conduzida
a um mundo totalmente novo, na verdade, é transportada na direção do Outro. Ao conseguir
concluir seu intento, emociona-se ao se perceber capaz de realizar desejos e sonhos alheios.
Movida por esse ideal, adentra o cotidiano de diferentes pessoas e o desconhecido fora de si a
conduz ao que ignora dentro de si. Descobre-se capaz de alterar a história das pessoas e ao
mesmo tempo fica excitada diante da aventura de mudar sua própria história pregressa, na medida
em que devolve a capacidade de sonhar ao pai. Por outro lado, começa a ter esperança em um
futuro diferente para si. Ao se apaixonar e viver o enfrentamento de suas emoções, percebe,
agora, sua real dificuldade de relacionamento. Inicia-se, então, o conflito entre manter-se ligada
às suas fantasias e idealizações ou adentrar o mundo real e vivenciar o amor. O dilema introduz
a difícil escolha pelo abandono do “mundo da criança”, o qual lhe pareceu por tanto tempo tão
seguro, mas agora, mostra-se insuficiente. Após alguma angústia decide entregar-se à realidade
do encontro com o outro. 
 
Análise da personagem: No início, o filme ilustra com exatidão a dinâmica
estrutural que pretendemos investigar. Amélie era uma criança como tantas outras. À sua maneira
procura interagir com a realidade familiar a partir de sua natureza singular. As figuras parentais
não se afiguram adequadas. Com características predominantes nos indivíduos com traços
obssessivos-compulsivos, mãe e pai, apresentam severa dificuldade de relacionamento,
mantendo-se em isolamento social. Sob esta perspectiva, inibem as frustradas tentativas de
relacionamento da menina (por ex.: decidem por devolver para o lago o único peixe - estressado
e suicida devido ao ambiente - com o qual mantinha contato). Amélie é criada em um mundo
asséptico. A situação se agrava com a morte trágica da mãe e a depressão do pai. O abandono
já eminente, mesmo na presença dos adultos, agora se configura real. Com a dificuldade de
projetar-se através da vivência com o outro, a menina acaba por refugiar-se num “mundo paralelo”,
onde se sente segura e protegida da ameaça alheia. Com o tempo, esse refúgio assume
características de uma “cela”, na qual constrói uma realidade fantasiosa acerca do mundo e dos
homens. Mas é com o encontro sincrônico da “caixa de objetos infantis” que a situação começa
a mudar. A retomada da própria infância e a possibilidade de reviver seus precoces conflitos,
aponta para um movimento em direção a natureza criativa da criança. O desejo pelo novo, restaura
na menina a possibilidade de transformar sonho em realidade e a conduz no sentido de sua
busca interior. Precisa se deparar com as questões do passado, o pai, o “velho” e sua melancolia,
e mostrar-se capaz de transformar criativamente a realidade de sua origem. Inúmeras outras
situações são vividas, até que se defronta com o afeto, o desejo de ligação, Eros em sua
potencialidade transformadora. O conflito se estabelece: “abandonar-se” à sorte do amor, ou
proteger-se eternamente dos homens e do sofrimento subjacente. Este é o dilema da personagem.
Para reduzir o sofrimento decorrente do abandono e do isolamento social faz uso de um mecanismo
“sedativo” de afastamento da realidade. Um modo de “asilo psíquico” com objetivo de redução de
danos. Contudo, tal tranqüilizante também lhe impossibilita de “sentir com”. Quando a personagem
descobre essa nova possibilidade, o conflito se mantém até que decide pelo encontro com o
homem no mundo real."
 
"Isolamento e Abandono na Infância e suas Conseqüências na Fase Adulta:Compreendendo a Personagem Amélie Poulain", Márcia Rodrigues Sapata. Retirado de: http://www.eppa.com.br/anais/con3_jung.pdf#page=163

domingo, 20 de março de 2011

Personallité

“O cérebro é o órgão da identidade. Envolve tudo que é inato a uma pessoa e suas experiências, pensamentos e emoções. O coração também é brilhante, mas não passa de uma bomba’’

“O cérebro nos molda, e nós também o moldamos. É maravilhoso combinar o universo físico e mental.’’

 Oliver Sacks 

Neurologista britânico, conhecido principalmente por seu livro “Tempo de Despertar’’, transformado em filme em 1990, o autor trata de temas com autismo, surdez, cegueira, daltonismo, agnosia, realizando, com incrível sensibilidade, verdadeiras análises antropológicas da doença. 

“Sempre me senti dividido entre o impulso de escrever e o impulso médico-científico’’


Filho de judeus ortodoxos, Sacks considera-se ateu. 

“A natureza me basta. Acho que deveria bastar a todos. Mas quem sou eu para dizer qualquer coisa?’’

“A medicina e a literatura se uniram quando passei a examinar pacientes em 1966. Ouvia histórias e queria contá-las. Descobri que a medicina é feita de histórias e nada mais. O psicólogo russo A.R. Luria também me influenciou muito com o livro A Mente de um Mnemonista (1968), em que faz um relato de caso com a sensibilidade de um drama. É a ciência romântica.’’

Foi o fascínio pela natureza que despertou, ainda muito cedo, sua curiosidade pela química, descrita em sua autobiografia “Tio Tungstênio - Memórias de uma Infância Química’’, e depois, pela biologia e medicina. 

“O interesse pela medicina aconteceu em parte por ser um tipo diferente de ciência. Trata-se de populações, variações, de evolução de espécies e indivíduos.’’


terça-feira, 15 de fevereiro de 2011

Filmes inesquecíveis

Quando eu lembro de registrar os filmes que vejo, coloco os nomes numa lista pra não esquecê-los depois. Resolvi então ir colocando aos poucos esses filmes no blog com comentários bem breves pra também deixar registrado as impressões que tive quando os vi! É sempre bom relembrar sensações diferentes que foram despertadas durante um bom filme... 

Hoje eu ordenei uma listinha com 15 desses filmes de uma maneira bem arbitrária aqui. Segui critérios um tanto pessoais: um pouco de sensação íntima - filmes que num dado momento da vida fazem todo sentido e tocam profundamente a alma -, um pouco de opinião crítica – aqueles que a gente vê e mesmo não sendo nenhum especialista em cinematografia consegue perceber que a produção foi simplesmente genial, roteiro, elenco, filmagem, figurino, efeitos especiais, trilha sonora... tudo o que é parte do filme!

Seguem aí 15 filmes:

 


1- O primeiro não poderia deixar de ser... Séraphine: pequenos segredos podem se transformar em grandes revelações




2- Gladiador: um homem de verdadeira honra

3- À espera de um milagre: a esperança de justiça e de cura




4- Brilho eterno de uma mente sem lembranças:  verdadeiros sentimentos são indestrutíveis





5- Vanilla Sky: a fragilidade tem imensa capacidade de nos surpreender 

6- V de vingança: a força que tem a construção das idéias  

7- O anticristo: por trás da feminilidade de uma mulher há uma serpente

8- Sincity: o encanto dado pela arte ao mundano




9- O fabuloso destino de Amelie Poulain: verdadeiros prazeres são os prazeres  autênticos





10- O escafandro e a borboleta: o poder que tem a imaginação quando o corpo é          é encarcerado 

11- Paris, je t’aime: as maravilhas de uma cidade contadas através de  histórias              encantadoras

12- O Homem que não estava lá: uma vida preta e branca 

13- Coração valente: o nome já é o bastante




14- O poderoso chefão: como uma verdadeira máfia sobrevive





15- O labinto do fauno: quando a fantasia desafia a mente e constrói 
capacidade de superação


terça-feira, 1 de fevereiro de 2011

E o photoshop não poupou Gisele dos encantos do make-up árabe



Curiosidade:

Nos fragmentos históricos encontrados em terras egípcias, as bailarinas de dança do ventre eram retratadas sempre com os olhos supermaquiados, ressaltando a expressividade do olhar. O costume foi preservado na atualidade, sendo o olhar um dos principais atrativos da dança.

segunda-feira, 31 de janeiro de 2011

Tão mais gostoso sem culpa...


Não é atoa que essa torta é chamada Tentação de Morango Negra. É deliciosa! Nela vão morango, chocolate, pão de ló, leite condensado, creme de leite e ganache. Deliciei cada pedaço me dando ao luxo de não me preocupar com as calorias que estavam sendo incorporadas! 

Não tem jeito! Carrego comigo um pouco dessas coisas que ouvimos falar todo dia, na tv, nas revistas, nos consultórios de nutricionistas: "Exagerou na comida, não se culpe! Não tem problema se depois você compensar em refeições menos calóricas e exercícios físicos!". E até que às vezes eu realmente tento compensar...

Mas meus ouvidos às vezes só escutam: "Não se culpe! Não tem problema!"

E é tão bom!

domingo, 30 de janeiro de 2011

Pensando sobre...

Fui na colação de grau de um primo que se formou em publicidade essa semana e me bateu um desejo tão forte de formar também!

Fiquei pensando sobre isso e resolvi criar esse espaço pra falar sobre coisas que eu ou que outras pessoas (jornalistas, acadêmicos, críticos de cinema, filósofos, amigos, pessoas famosas, pessoas comuns) andamos pensando... Desejos, reflexões, opiniões, sonhos, tudo o que se trata de expressão de pensamento. 

Então, vou começar falando sobre formatura! 

Estou indo pro 7º período de Medicina. Faltam então 6 períodos (contando com esse) pra me formar. Ainda leva um tempinho, mas passa tão rápido que nem vemos passar!

Já se foram algumas formaturas...

                                                  Formatura da Ju 
                                                                   Eu, Ju, Ana, Laís


                                                 Formatura da minha irmã
                                              Lilian, Stefânia, eu (com a máscara fora do lugar!)


                                              Formatura da Lilian - Mariana, Stefânia, Thaísa, 
                                       Lara, Lilian, Rafela, eu, Paulinha, Marina, Fernanda, Myra


                                                  Formatura da Rafa
                                                          Lilian, Rafaela, Lara, eu, Paulinha
 
E ainda virão mais algumas e... se Deus quiser a minha vai chegar! rss
É muito bom faculdade! Adoro meu curso, os colegas, muitos professores bons... Mas quando chega o final, aquela sensação de dever cumprido e de vida nova a partir daí, trabalho, começar a ganhar dinheiro e ter autonomia, deve ser muuuito bom!
 
É isso!



Poesia das boas!

Não resisto! Preciso colocar aqui alguns cantos que contou  em Contando Canto. É tanta inspiração que esses cantos dão na gente que dá vontade de contar pra todo mundo! 


Olinda

Saudade quando não cabe na alma, vira mar.
Desagua e chora. 




rosa branca

 ô meu bem.
 toma um beijo meu.
 toma mesmo.
 bebe.

 engole.
 e deixa na barriga.
 como um filho. 



la intervención.

Abri o chuveiro e chorei doído por quase duas horas.
Existem muitas formas de mandar alguém à merda, baby. Uma delas, é pelo ralo.



À Deus.

Hoje, mais que qualquer outro dia, quis escrever.
Não consegui.
Existem coisas que foram feitas pra sentir.



Ela sabe MESMO contar canto



sábado, 29 de janeiro de 2011

Super descoberta!


Muito simpática a cerveja La Séraphine, não?

Personnalité

       É hora de falar de gente interessante! De gente que faz o que gosta, que sente prazer pelas coisas simples e, ao mesmo tempo, sofisticadas da vida. Gente que realiza sonhos e aventuras com inspiração! 

       E pra estrear a coluna, vamos falar do grande ator, diretor e produtor de cinema Robert de Niro, que este ano presidirá o júri do 64º Festival de Cannes.

       É um ator e tanto, não? Acho inesquecível a sua atuação em Tempo de Despertar como Leonard Lowe, que ficou "adormecido" por décadas até que recebeu tratamento com L-dopa. Ele soube representar de forma impecável os efeitos colaterais do medicamento, fazendo movimentos involuntários da mesma forma que acontece na vida real!



  
Data de Nascimento:17/08/1943
Signo: Leão
Local de nascimento: Nova Iorque, EUA

       Ele tem uma vida familiar bastante reservada, dificilmente dá entrevistas ou é visto em festas. É casado com a comissária de bordo Grace Hightower, com quem tem um filho, e tem outros quatro filhos de relações anteriores.
       
        Tem verdadeira paixão por Nova Iorque, particularmente pelo bairro que habita, Tribeca, na baixa Manhattan. Desde 1989, investe na região, tendo aberto lá um restaurante, uma produtora, e, principalmente, criado o festival de cinema independente, Tribeca Film Festival.

        Apreciado por levar muito a sério seus papéis, de Niro passou quatro meses estudando o dialeto siciliano para interpretar o jovem Vito Corleone no filme O poderoso chefão (1973), aprendeu a tocar saxofone para atuar em New York, New York (1977), engordou 27 quilos e aprendeu a lutar boxe para melhor encarnar o personagem Jake LaMotta em O Touro Indomável (1980).